1817

Há anos que guardam na alma o peso de uma era, e 1817 foi um desses anos — um tempo de ebulição e de sonhos, quando o Recife se ergueu contra o jugo português e proclamou, ainda que por breves dias, a primeira república em solo brasileiro. Foi a Revolução Pernambucana, também conhecida como Revolução dos Padres, um movimento que irrompeu nas ruas da capital pernambucana em 6 de março daquele ano e que, durante setenta e quatro dias, fez do Recife a sede de um governo livre, alimentado pelos ideais que vinham da França, dos Estados Unidos e das colônias espanholas que se libertavam na América .

Para compreender a força e a ousadia desse levante, é preciso primeiro mergulhar no Recife de 1817, uma cidade de cerca de quarenta mil habitantes, pulsante e contraditória, que rivalizava em importância com o Rio de Janeiro. Pernambuco era então uma das capitanias mais ricas da colônia, com seu açúcar e algodão abastecendo mercados europeus e gerando divisas que, no entanto, não permaneciam em suas arcas. Desde 1808, com a chegada da família real portuguesa ao Brasil, a corte instalada no Rio de Janeiro passara a exigir tributos cada vez mais pesados para sustentar seu luxo e suas obras — e era sobre Pernambuco que recaía boa parte desse fardo. Um imposto, em particular, tornara-se símbolo do ressentimento: a taxa destinada a iluminar as ruas do Rio de Janeiro, enquanto as do Recife continuavam imersas na escuridão . A isso somavam-se a seca de 1816, que devastara colheitas, e o favorecimento sistemático dos comerciantes portugueses em detrimento dos locais .

Mas as causas da revolução não eram apenas econômicas. Eram também, e talvez sobretudo, ideológicas. As ideias liberais que haviam incendiado a Revolução Francesa, que haviam inspirado a independência dos Estados Unidos e que agora corriam pelas colônias espanholas em fratura, encontravam em Pernambuco solo fértil. Chegavam através de livros proibidos que circulavam clandestinamente, através de estudantes que voltavam da Universidade de Coimbra trazendo na bagagem os textos de Rousseau, Montesquieu e Voltaire, e através das lojas maçônicas que floresciam na capitania — o Areópago de Itambé, a Academia do Paraíso, a Academia do Cabo — onde se conspirava e se sonhava com a liberdade . No Seminário de Olinda, fundado em 1800, o ensino do francês permitia que os futuros padres lessem os filósofos iluministas, e muitos deles se tornariam líderes do movimento .

O estopim da revolução veio em março de 1817, quando o governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro, alertado por denúncias, ordenou a prisão dos principais conspiradores. Mas os planos não saíram como o esperado. No Quartel de Artilharia, ao receber a voz de prisão, o capitão José de Barros Lima, conhecido como Leão Coroado, reagiu com a espada e matou o comandante que o intimava. O gesto foi o sinal esperado. Os militares rebelaram-se, libertaram os presos da Cadeia Pública e do Forte das Cinco Pontas, e foram ao encalço do governador, que se refugiou no Forte do Brum, onde acabou rendendo-se . No dia 7 de março, o Recife amanhecia sob o controle dos revolucionários.

Formou-se então um Governo Provisório, composto por cinco representantes dos diversos setores da sociedade local: comerciantes, militares, clérigos, magistrados e senhores de engenho. Era uma junta heterogênea, unida pelo desejo comum de libertar-se de Portugal, mas já marcada pelas contradições que limitariam o alcance do movimento. O novo governo organizou-se com notável rapidez: enquanto não fosse possível reunir uma Assembleia Constituinte, a república seria regida por uma lei orgânica com vinte e oito artigos, que estabeleciam a separação dos poderes, a liberdade de imprensa e a tolerância religiosa, embora mantivesse o catolicismo como religião oficial . Aboliu-se o uso do pronome de tratamento "vossa mercê", considerado herança da subserviência monárquica, e os cidadãos passaram a tratar-se por "vós" ou por "patriota" .

Criou-se também uma bandeira para a nova república: um retângulo azul sobre um branco, com um arco-íris de três cores sobre o azul — símbolo da união dos povos —, três estrelas representando as capitanias que aderiram ao movimento (Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte), um sol radiante e, sobre o branco, uma cruz vermelha que remetia ao nome primitivo da terra . Essa bandeira, com pequenas modificações, seria adotada quase um século depois como a bandeira oficial do estado de Pernambuco .

O governo revolucionário tratou de estender o movimento às capitanias vizinhas e de buscar reconhecimento internacional. Emissários foram enviados à Paraíba, ao Rio Grande do Norte e ao Ceará, logrando adesões importantes. Para a Bahia, seguiu o Padre Roma, mas ali a notícia chegara antes dele: foi preso e fuzilado no Campo da Pólvora, tornando-se um dos primeiros mártires da causa . Para os Estados Unidos, partiu Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, com a missão de comprar armas, contratar oficiais e obter o apoio do governo americano. Cabugá levava consigo uma soma considerável — oitocentos mil dólares em valores da época — e conseguiu adquirir dez mil fuzis e despertar a simpatia de bonapartistas exilados na Filadélfia . Surgiu então um plano ousado e quase inacreditável: utilizar a República de Pernambuco como base para resgatar Napoleão Bonaparte do exílio na ilha de Santa Helena e trazê-lo para a América. Quatro veteranos franceses partiram em direção ao Brasil, mas quando aqui chegaram, em agosto, a revolução já havia sido esmagada, e eles foram presos antes mesmo de desembarcar .

Porque a república, apesar de sua bravura e de seus ideais, durou apenas dois meses. As falhas foram muitas e profundas. Internamente, o movimento era atravessado por contradições insolúveis: os senhores de engenho que lideravam a revolução, embora desejassem libertar-se de Portugal, não estavam dispostos a libertar seus escravos. A escravidão, base de toda a economia açucareira, permaneceu intocada, e isso limitou drasticamente o apoio popular que a revolução poderia mobilizar. Os negros e mulatos, que constituíam parcela expressiva da população e que haviam tido participação decisiva nas lutas de rua, viram-se excluídos do projeto republicano, e os líderes recusaram-se a armar os cativos com medo de que eles fizessem sua própria revolução, como no Haiti . Essa contradição minou a capacidade de resistência do movimento.

Externamente, o cerco apertou-se. Por terra, tropas fiéis à Coroa desceram da Bahia, reforçadas por contrarrevolucionários da comarca das Alagoas, que aproveitaram a oportunidade para separar-se de Pernambuco. Por mar, embarcações enviadas do Rio de Janeiro bloquearam o porto do Recife, impedindo a entrada de alimentos e de reforços. A fome começou a grassar na cidade, e os combates sucessivos foram desfavoráveis aos republicanos . Em 19 de maio, as forças realistas entraram no Recife. O Governo Provisório dispersou-se. O Padre João Ribeiro, um dos líderes, suicidou-se para não ser capturado, mas seu corpo foi desenterrado, esquartejado e sua cabeça exposta publicamente por dois anos .

A repressão foi feroz e exemplar, calculada para semear o terror e desencorajar futuras rebeliões. Os principais chefes foram executados com requintes de crueldade. Domingos José Martins, o rico comerciante que liderara o movimento, foi enforcado e esquartejado. Frei Miguelinho, secretário-geral do governo provisório, correu a mesma sorte. O capitão José de Barros Lima, o Leão Coroado, também foi executado. As sentenças determinavam que, depois de mortos, tivessem as mãos decepadas e as cabeças cortadas, para serem expostas em diferentes localidades, enquanto os restos dos corpos seriam arrastados por cavalos até os cemitérios . Mais de quatrocentos participantes da revolução foram presos e enviados para Salvador, onde cumpririam pena durante quatro anos; centenas de militares pernambucanos foram deportados para lutar na Província Cisplatina. Como punição coletiva, a comarca das Alagoas foi desmembrada de Pernambuco e elevada à condição de capitania independente .

Mas a violência da repressão não conseguiu matar o espírito que animara a revolução. Os ideais de liberdade, de república, de justiça, continuaram a circular nas lojas maçônicas, nas conversas de padres e comerciantes, nas memórias daqueles que haviam vivido os setenta e quatro dias de governo próprio. Sete anos mais tarde, em 1824, eles irromperiam novamente na Confederação do Equador, outro movimento republicano que sacudiria Pernambuco e o Nordeste .

A Revolução Pernambucana de 1817 é, ainda hoje, um capítulo mal conhecido da história brasileira, muitas vezes minimizado pela narrativa oficial que prefere celebrar a independência de 1822 como um processo pacífico e orquestrado. Mas os historiadores que se debruçam sobre o período lembram que foi o único movimento anticolonial em toda a história da monarquia portuguesa que conseguiu tomar o poder e sustentar um governo próprio . Foi um projeto de nação mais vanguardista do que aquele que triunfaria no 7 de setembro, um projeto republicano, constitucional, antenado com o que de mais avançado se pensava na filosofia política da época .

Hoje, quem caminha pelo Recife antigo pode encontrar, em alguns pontos, placas de azulejo que marcam os locais onde se desenrolaram os acontecimentos de 1817: o Forte das Cinco Pontas, a antiga Cadeia Pública, o Quartel de Artilharia onde o Leão Coroado puxou da espada. São marcos discretos, quase invisíveis na paisagem urbana, mas que guardam a memória de um tempo em que a cidade ousou sonhar com a liberdade e, por setenta e quatro dias, viveu como república. E é por isso que, ao contar a história do Recife — a mesma cidade onde, décadas mais tarde, o imigrante José Joaquim de São Marcos desembarcaria para construir sua vida, e onde seu neto Wilson se tornaria sócio-fundador da Casa Holland — é justo lembrar também desses revolucionários, desses patriotas que, com suas vidas, suas mortes e seus sonhos, ajudaram a forjar o espírito inquieto e generoso dessa terra.

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