1848

1848-1850: A Revolução Praieira — O Último Suspiro Revolucionário de Pernambuco

O Preâmbulo de Uma Erupção

Há momentos na história em que o solo parece tremer sob os pés dos homens, anunciando que algo de profundo está prestes a romper a superfície do tempo. O ano de 1848 foi um desses momentos — não apenas para o Brasil, mas para todo o mundo ocidental. Enquanto a Europa ardia na chamada "Primavera dos Povos", com revoluções liberais e nacionalistas varrendo da França à Áustria, da Alemanha à Itália, Pernambuco preparava-se para escrever o último capítulo de sua longa tradição rebelde .

A Revolução Praieira, ou Insurreição Praieira como também é conhecida, foi a derradeira das grandes revoltas provinciais do Império brasileiro. Eclodiu em 1848 e estendeu-se até 1850, encerrando com chave de ouro um ciclo revolucionário que vira, em Pernambuco, a Revolução de 1817 e a Confederação do Equador de 1824. Seu nome vem do jornal Diário Novo, sediado na Rua da Praia, no Recife, onde se reuniam os liberais radicais que dariam alma ao movimento — os chamados "praieiros" .

Para compreender a explosão, é preciso primeiro entender a pólvora que se acumulava havia décadas nos porões da sociedade pernambucana.

As Causas: Um Cadinho de Injustiças

A Praieira não nasceu de uma única causa, mas de um emaranhado de tensões sociais, econômicas e políticas que há muito vinham se avolumando. No centro de tudo estava a estrutura agrária da província — uma estrutura que o tempo e a história haviam tornado tão desigual quanto possível. O latifúndio dominava a Zona da Mata, com pouquíssimas famílias controlando extensões imensas de terra, enquanto a massa da população livre vivia na mais completa miséria, como rendeiros, agregados ou trabalhadores sazonais dos engenhos .

A economia açucareira, base de toda essa estrutura, atravessava uma crise prolongada. A concorrência do açúcar de beterraba europeu e do açúcar cubano deprimia os preços no mercado internacional, enquanto os custos de produção, baseados no trabalho escravo, permaneciam altos. Os senhores de engenho, para manter suas margens, apertavam ainda mais os parafusos sobre a população livre e os escravos, gerando um descontentamento que se espalhava como fogo em palha seca .

Havia também a questão do comércio, profundamente ligada ao sentimento antilusitano que há séculos marcava a história pernambucana. Os portugueses dominavam o comércio a retalho — as lojas, as vendas, os armazéns — e também boa parte do comércio atacadista. Dos 70 atacadistas então estabelecidos no Recife, menos de um terço eram brasileiros. As seis mil casas retalhistas pertenciam majoritariamente a portugueses, que ainda por cima recusavam-se a contratar caixeiros nativos, reservando esses postos para seus patrícios recém-chegados. Para os jovens pernambucanos pobres, restavam "o mesquinho recurso dos empregos públicos ou a áspera vida de soldado", como protestava a imprensa liberal da época .

Essa concorrência entre nacionais e portugueses gerava tensões constantes, que explodiam periodicamente em violentos "mata-marinheiros" — assim chamados porque os portugueses, em sua maioria, chegavam ao Brasil como marinheiros ou grumetes e depois se estabeleciam no comércio. Em junho de 1848, poucos meses antes da eclosão da revolta, o Recife assistira a um dos mais intensos desses motins, com manifestantes chegando a propor à Assembleia Provincial uma lei que nacionalizasse o comércio a retalho e expulsasse os portugueses solteiros da província .

A estas queixas econômicas e sociais somavam-se as políticas. O Império brasileiro, sob D. Pedro II, funcionava através de um sistema parlamentar que alternava no poder conservadores e liberais, mas que na prática excluía as facções mais radicais e mantinha o poder moderador — essa instituição única que dava ao imperador a palavra final sobre todos os atos dos outros poderes. Em Pernambuco, os liberais mais exaltados, agrupados em torno do Diário Novo, sentiam-se permanentemente excluídos e perseguidos .

O Estopim: A Nomeação de Araújo Lima

O estopim da revolta veio em setembro de 1848, quando D. Pedro II nomeou o conservador Pedro de Araújo Lima, visconde de Olinda, para presidir o Conselho de Ministros. Araújo Lima, que fora regente do Império entre 1837 e 1840, representava tudo o que os liberais radicais pernambucanos mais odiavam: a centralização monárquica, o domínio das velhas oligarquias, a exclusão das províncias das decisões do governo central .

Pouco depois, a nomeação do conservador Herculano Ferreira Pena para a presidência da província de Pernambuco confirmou os piores pressentimentos dos praieiros. Viram nisso não apenas uma mudança administrativa, mas uma declaração de guerra: o Império, mais uma vez, ignorava os anseios da província e impunha governantes alheios aos interesses locais. Em outubro, a dissolução da Câmara dos Deputados — que os praieiros ainda controlavam — foi a gota d'água .

A 7 de novembro de 1848, Olinda pegou em armas. O movimento espalhou-se rapidamente como um rastilho por toda a província, de Igarassu a Nazaré da Mata, de Goiana ao sul da Zona da Mata. Os revoltosos, compreendendo que teriam mais chance no interior, deixaram as cidades litorâneas e buscaram o apoio dos senhores de engenho liberais do vale do Siriji e das matas do sul .

Os Líderes: Um Mosaico de Revolucionários

A liderança da Praieira era tão variada quanto suas causas. Havia, de um lado, figuras da elite liberal pernambucana — senhores de engenho, bacharéis, deputados — como Joaquim Nunes Machado, Félix Peixoto de Brito e Manuel Pereira de Morais. Havia, de outro, militares de carreira como o general José Inácio de Abreu e Lima — figura fascinante que lutara ao lado de Simón Bolívar nas guerras de independência da América espanhola — e o capitão Pedro Ivo Veloso da Silveira, que se tornaria o grande herói popular da revolta .

Havia, ainda, líderes populares como Antônio Borges da Fonseca, jornalista e republicano convicto, que representava a ala mais radical do movimento — aqueles que não queriam apenas reformar a monarquia, mas extingui-la e proclamar a república. E havia, finalmente, a massa anônima dos combatentes: pequenos agricultores arruinados pela crise, rendeiros expulsos de suas terras, negros libertos, artesãos, caixeiros desempregados, toda a populaça do Recife e do interior que via na revolta a única esperança de dias melhores .

O historiador Amaro Quintas observou que a Praieira, diferentemente de outros movimentos pernambucanos, não foi "um movimento de cima para baixo, mas, ao inverso, de baixo para cima". O que empolgara e impulsionara a revolta foram os líderes populares, não os chefes da cúpula partidária. Essa característica dava ao movimento uma energia e uma radicalidade que assustavam até mesmo seus líderes mais moderados .

O Manifesto ao Mundo

Em 1º de janeiro de 1849, quando a revolta já durava quase dois meses, os praieiros lançaram seu programa oficial — um documento que ficaria conhecido como "Manifesto ao Mundo". Assinado pelos chefes militares do movimento, o manifesto condensava em nove pontos as aspirações dos revoltosos :

  1. O voto livre e universal do povo brasileiro;

  2. A plena e absoluta liberdade de comunicar os pensamentos por meio da imprensa;

  3. O trabalho como garantia de vida para o cidadão brasileiro;

  4. O comércio a retalho só para os cidadãos brasileiros;

  5. A inteira e efetiva independência dos poderes constituídos;

  6. A extinção do Poder Moderador e do direito de agraciar;

  7. O elemento federal na nova organização;

  8. A completa reforma do Poder Judiciário, de forma a assegurar as garantias dos direitos individuais;

  9. A extinção da lei do juro convencional e do sistema de recrutamento militar então vigente .

O manifesto era, ao mesmo tempo, um documento liberal clássico — com sua ênfase nas liberdades individuais, na independência dos poderes, no federalismo — e um documento que já apontava para questões sociais mais profundas, como a garantia do trabalho e a nacionalização do comércio varejista. Não era ainda um manifesto socialista — os praieiros, como observa o professor Severino da Silva, "antecedem pensamentos marxistas", mas já discutiam questões sociais urbanas importantes para a época .

A Guerra Civil Pernambucana

Os combates estenderam-se por toda a Zona da Mata, numa guerra de movimentos que alternava vitórias e derrotas para ambos os lados. Os revoltosos chegaram a ocupar Nazaré da Mata, Goiana, Igarassu e diversas outras localidades. Em 20 de dezembro de 1848, obtiveram uma importante vitória no Combate de Cruangi, que elevou o moral das tropas e obrigou o governo imperial a levar a sério a ameaça .

Em janeiro de 1849, as forças praieiras aglutinaram-se no sul da província, formando um exército de cerca de 2.500 combatentes. O governo, por sua vez, concentrava tropas da linha — forças regulares do exército — vindas da Bahia e de Alagoas, além de mobilizar a Guarda Nacional e contingentes particulares recrutados pelos grandes proprietários fiéis ao Império .

A decisão de marchar sobre o Recife foi tomada no início de fevereiro. O plano era ousado: atacar a capital, tomar o Palácio do Governo e forçar o governo imperial a negociar. Na madrugada de 2 de fevereiro de 1849, cerca de 1.200 homens divididos em duas colunas avançaram sobre o Recife. Uma coluna, vinda pelo sul, conseguiu chegar às portas do Palácio da Presidência. A outra, vinda pelo norte, foi derrotada antes de alcançar seus objetivos. Sem conseguir unir as forças, sem o apoio da população da capital — que a polícia mantinha sob estrito controle —, os revoltosos viram frustrado seu golpe de mestre .

A Derrota e a Repressão

A derrota no Recife foi o princípio do fim. Desfalcados em cerca de quinhentos soldados, tendo perdido um de seus principais líderes — o deputado Nunes Machado, morto nos combates —, os praieiros retiraram-se em dois grupos. Um, liderado por Peixoto de Brito e Borges da Fonseca, seguiu para a Paraíba, mas foi rapidamente perseguido e dissolvido. O outro, comandado pelo capitão Pedro Ivo, refugiou-se nas matas do sul da província, onde resistiu por mais de um ano numa guerra de guerrilhas que se tornaria lendária .

Pedro Ivo, com seu pequeno bando de rebeldes, escapou repetidas vezes das forças imperiais, movendo-se por entre os engenhos, acolhido por populações locais que o viam como herói. Sua resistência prolongada tornou-se um símbolo da luta praieira, alimentando a esperança dos derrotados e a frustração do governo. Só em 1850, após inúmeras perseguições, é que a resistência foi finalmente debelada .

O tratamento dado aos revoltosos variou conforme sua posição social. Os líderes pertencentes à classe dominante — senhores de engenho, bacharéis, deputados — foram presos e julgados, mas apenas em novembro de 1851, quando os ânimos já haviam serenado, receberam anistia e puderam retornar a seus cargos e engenhos. Os rebeldes das camadas populares — rendeiros, trabalhadores, negros libertos — não tiveram direito a julgamento. Muitos foram sumariamente fuzilados durante ou logo após os combates; outros sofreram recrutamento forçado para o exército; os demais, quando muito, foram anistiados por intervenção de seus antigos superiores para retornarem ao trabalho .

O Legado

A Revolução Praieira foi a última das revoltas provinciais do Império. Sua derrota inaugurou um longo período de estabilidade política no Brasil — a chamada "pacificação" do Segundo Reinado, que se estenderia até o final da década de 1860, graças à política da conciliação implantada por D. Pedro II e à prosperidade trazida pelo café .

Mas seu significado vai além da mera cronologia política. A Praieira foi o último suspiro de uma tradição revolucionária pernambucana que vinha desde a Guerra dos Mascates, no início do século XVIII, passando pela Revolução de 1817 e pela Confederação do Equador de 1824. Como observa o professor Severino da Silva, "essa questão de Pernambuco ser sede de várias revoluções é uma tradição que vem desde o período colonial. O estado sempre manteve esse certo sentimento de independência e todas essas revoltas geraram o mito de que somos um lugar que cria revoluções" .

Foi também, em muitos aspectos, um prenúncio do que viria décadas depois. Suas reivindicações — o voto universal, a liberdade de imprensa, a garantia de trabalho, a reforma agrária, a limitação do poder do Estado — reapareceriam em movimentos posteriores, inclusive no ciclo de revoltas populares do final do século XIX e início do XX. O historiador Édison Carneiro, em seu clássico *A Insurreição Praieira (1848-49)*, mostrou como o movimento expressava contradições profundas da sociedade brasileira que não seriam resolvidas nem com o fim do Império nem com a proclamação da República .

A Praieira e a Família Seve

Para a família Seve, que desde 1806 habitava o Recife — primeiro na Rua da Cadeia, depois em outros endereços — a Revolução Praieira foi certamente um acontecimento vivido de perto. João Maria Seve, o patriarca, falecera em 1844, quatro anos antes da eclosão do movimento, mas seus filhos estavam todos em idade adulta e ativos na sociedade recifense.

Miguel Archanjo Seve, que nascera em 1827 e contava então com 21 anos, era alferes da Guarda Nacional de Olinda. A Guarda Nacional, instituição criada no Período Regencial, estava profundamente envolvida nos conflitos: seus contingentes dividiam-se entre os que apoiavam o governo imperial e os que aderiam aos revoltosos, dependendo das lealdades locais de seus comandantes. Não sabemos de que lado Miguel Archanjo teria estado — sua patente de alferes sugere que ocupava uma posição social que o obrigava a tomar partido, mas os registros silenciam sobre seu envolvimento ou não na revolta.

Seus irmãos — José Maria, Manuel Joaquim, Francisco Miranda Leal — eram negociantes estabelecidos no Recife, provavelmente com lojas na Rua Nova ou na Rua da Cadeia. Para comerciantes portugueses ou descendentes de portugueses, como eles, a revolta representava um perigo particular: o sentimento antilusitano que alimentava a Praieira podia voltar-se contra qualquer um que tivesse nome português ou negócios no comércio varejista. A exigência de "comércio a retalho só para cidadãos brasileiros" era uma ameaça direta a famílias como os Seve, que viviam do comércio.

É provável que tenham vivido aqueles anos com apreensão, vendo as ruas do Recife transformarem-se em campo de batalha, ouvindo os tiroteios vindos das pontes e dos arrabaldes, contando os mortos e feridos que se acumulavam nos combates de fevereiro de 1849. O medo da "populaça" — esse temor tão característico das elites brasileiras oitocentistas — deve ter se misturado, em seus corações, com a incerteza sobre o futuro de seus negócios e de suas famílias.

O Silêncio dos Arquivos

Como tantos outros aspectos da história das famílias comuns, a relação dos Seve com a Praieira permanece envolta em silêncio. Os arquivos, que registraram minuciosamente os nascimentos, casamentos e mortes da família, nada dizem sobre suas simpatias ou desafetos políticos. O silêncio, nesse caso, pode ser eloquente: numa revolta que dividiu tão profundamente a sociedade pernambucana, manter-se discreto, não deixar rastros de envolvimento, era talvez a estratégia mais prudente para comerciantes que dependiam de boas relações com todos os lados.

O que sabemos é que a família sobreviveu à revolta. Os Seve continuaram seus negócios, casaram seus filhos, acumularam propriedades, e nas décadas seguintes integraram-se plenamente à sociedade recifense do Segundo Reinado. Miguel Archanjo, que em 1849 era um jovem alferes, viveria até 1872, casando-se, tendo doze filhos, e tornando-se pai de Maria Adelayde Seve — aquela que, ao casar-se com um descendente dos Samarcos, uniria as duas linhagens e daria origem à família cuja história ainda hoje se conta.

O Tempo e a Memória

A Revolução Praieira terminou há mais de cento e setenta anos. Os canhões silenciaram, os manifestos amarelaram nos arquivos, os combatentes morreram e foram enterrados. Mas algo daquele tempo permanece — na memória da cidade, nas tradições orais das famílias pernambucanas, na própria toponímia do Recife, onde a Rua da Praia ainda existe, testemunha silenciosa dos acontecimentos que ali tiveram sede.

Para os descendentes dos Seve e dos Samarcos, a Praieira é parte do cenário em que sua história se desenrolou — o pano de fundo contra o qual seus antepassados viveram, trabalharam, amaram e morreram. Não sabemos se tomaram partido, se sofreram perdas, se alimentaram esperanças. Mas sabemos que estavam lá, naquele Recife em chamas, naqueles anos de fogo e sangue, construindo com seus gestos cotidianos a trama miúda da história que um dia seus descendentes tentariam reconstituir.

E é isso, talvez, o que mais importa: não apenas os grandes feitos dos heróis e dos líderes, mas a presença anônima daqueles que, vivendo suas vidas comuns em tempos extraordinários, teceram os fios que nos ligam ao passado. A Revolução Praieira, vista através dos olhos de uma família como os Seve, deixa de ser um episódio abstrato da história do Brasil para se tornar parte viva da memória — memória que, mesmo silenciosa, mesmo fragmentária, ainda nos fala através do tempo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário