Há anos que guardam na alma o peso de uma era, e 1870 foi um desses anos — um tempo de transformações silenciosas, de partidas sem regresso e de esperanças que atravessavam oceanos. Foi nesse ano, ou por volta dele, que José Joaquim de São Marcos — ou Samarcos, como o tempo e o uso popular consagrariam o nome — tomou a decisão que mudaria para sempre o curso de sua história e, sem o saber, daria início a uma linhagem que atravessaria gerações até chegar a nós. Natural da região que abraça a foz do Mondego, onde as terras de Lavos, Ílhavo e Buarcos se entrelaçam numa paisagem de sal, mar e campos cultivados, José Joaquim era filho de um Portugal que já não tinha espaço para todos os seus filhos.
Para compreender as razões que levaram esse homem a cruzar o Atlântico rumo ao Recife, é preciso primeiro mergulhar no Portugal de meados do Oitocentos, um país de contrastes profundos, onde a modernidade ensaiava seus primeiros passos, mas as estruturas antigas ainda pesavam sobre o destino das gentes. A segunda metade do século XIX foi um período de transformações na Europa, marcado pela expansão do capitalismo industrial, pelo crescimento demográfico e pela consequente pressão sobre os meios de subsistência nas regiões mais pobres do continente. Portugal, nação de tradição agrícola e marinheira, sentia intensamente essas tensões. No campo, a pequena propriedade fragmentava-se entre herdeiros, os solos cansados já não davam o sustento de outrora, e os braços que a terra não podia empregar viam no mar — ou para além dele — a única saída digna.
A região da Figueira da Foz, onde se inseriam as localidades de Lavos, Ílhavo e Buarcos, vivia nesse tempo um momento peculiar. Buarcos, freguesia de profundas tradições marítimas, fora outrora um importante porto de mar, cuja relevância chegou a superar a da própria Figueira . Suas gentes, pescadores e homens do mar, conheciam as artes da navegação e os riscos do Atlântico como poucos. Ainda no século XIX, a população da Figueira da Foz quase duplicara, impulsionada pela dinâmica do porto, pelo desenvolvimento da construção naval e, mais tarde, pela nascente indústria do turismo balnear que começava a atrair a aristocracia portuguesa e até espanhóis endinheirados às suas praias de areia dourada . Mas esse florescimento econômico não chegava a todos, e muitos dos que viviam nas pequenas localidades do entorno, como Lavos e Ílhavo, viam-se apertados entre a tradição agrícola e a impossibilidade de nela prosperar.
Ílhavo, por sua vez, carregava uma vocação marítima ainda mais antiga. Desde os séculos XV e XVI, os ilhavenses haviam se lançado à arriscada aventura da pesca do bacalhau nos mares gélidos da Gronelândia e da Terranova, aproveitando sua natural propensão para as atividades do mar e a produção local de sal, tão necessária à conservação do peixe . Essa tradição aventureira, essa disposição para cruzar oceanos em busca de sustento, estava gravada na alma da região. Para um homem como José Joaquim, crescido nesse ambiente onde o mar era ao mesmo tempo horizonte e caminho, a ideia de emigrar não seria vista como ruptura absoluta, mas como extensão natural de um destino coletivo.
As causas que impulsionaram a emigração portuguesa na segunda metade do Oitocentos foram múltiplas e entrelaçadas. A pressão demográfica sobre uma estrutura agrária pouco produtiva, a instabilidade política que marcou as primeiras décadas da monarquia constitucional, os sonhos de ascensão social que a terra natal já não podia alimentar — tudo isso contribuía para que milhares de portugueses, ano após ano, tomassem o rumo do Brasil. Entre 1877 e 1903, entrariam no país 389.580 portugueses, e o censo de 1872, realizado apenas dois anos depois do período que nos ocupa, já contabilizava 121.216 portugueses em solo brasileiro, dos quais impressionantes 83% eram homens . Eram, em sua esmagadora maioria, jovens em idade produtiva, que deixavam para trás famílias, noivas e tradições em busca de um futuro que a pátria lhes negava.
Mas por que o Brasil? E por que o Recife, especificamente? As relações entre Portugal e sua antiga colônia mantinham-se intensas mesmo depois da independência. Laços de língua, de fé, de comércio e de parentesco continuavam a unir as duas margens do Atlântico. No Recife do último quartel do século XIX, a presença portuguesa era marcante e organizada. Os imigrantes lusos dedicavam-se sobretudo ao comércio, atividade na qual construíram sólidas posições. Não por acaso, instituições como o Real Hospital Português e o Gabinete Português de Leitura testemunham até hoje a importância e a coesão dessa comunidade .
José Joaquim de São Marcos, ao escolher ser comerciante de chapéus, inseria-se num dos ramos mais característicos do comércio urbano da época. O chapéu, no século XIX, não era mero acessório: era símbolo de distinção social, marcador de status, peça essencial no vestuário de qualquer homem ou mulher que aspirasse à respeitabilidade. As lojas de chapéus — as chapelarias — ocupavam lugar de destaque nas ruas comerciais das grandes cidades, e o Recife, como capital pernambucana e importante centro urbano do Império, oferecia um mercado promissor para quem conhecesse o ofício e soubesse oferecer produtos de qualidade. A escolha por esse ramo específico do comércio pode ter sido influenciada por contatos prévios com outros imigrantes da mesma região, por algín conhecimento de família ou simplesmente pela percepção de que ali havia oportunidade para quem tivesse visão e trabalho.
O Brasil que recebia José Joaquim em 1870 era um país ainda monárquico, governado por D. Pedro II, que já contava trinta anos de reinado e conduzia a nação por um período de relativa estabilidade e modernização. O Segundo Reinado assistira à consolidação do Estado nacional, ao crescimento da economia cafeeira no Sudeste e a um lento mas perceptível processo de urbanização e diversificação econômica. O Recife, especificamente, vivia um momento de efervescência: a cidade expandia-se para além de seus limites coloniais, bairros novos surgiam, o comércio prosperava e a vida intelectual e cultural ganhava novos contornos. Os imigrantes estrangeiros — portugueses, mas também ingleses, franceses e alemães — participavam ativamente dessa transformação, trazendo técnicas, mercadorias e modos de fazer que contribuíam para moldar a cidade moderna que despontava .
Não é difícil imaginar a travessia de José Joaquim: os dias e noites a bordo de um vapor que cortava o Atlântico, a mistura de medo e esperança no peito de cada emigrante, a chegada ao porto do Recife com suas águas escuras do Capibaribe, o burburinho das ruas, os cheiros desconhecidos, a necessidade de encontrar abrigo e trabalho. Ele certamente contaria com a rede de solidariedade que os portugueses construíam entre si, as indicações de patrícios que haviam chegado antes, as pensões e hospedarias onde se falava a mesma língua e se comiam iguarias parecidas com as da terra. O comércio de chapéus seria sua porta de entrada no mundo dos negócios recifenses, o ofício com que construiria seu lugar na nova pátria.
As terras que ele deixara para trás — Lavos, Ílhavo, Buarcos — continuariam a existir em sua memória como paisagens da infância e da juventude: os areais da costa, as salinas cintilantes sob o sol, as igrejas onde aprendera a rezar, os caminhos entre os pinheirais e os campos. Buarcos, com sua Igreja da Misericórdia onde há séculos os pescadores faziam suas preces antes de se lançarem ao mar , Ílhavo com sua tradição de navegantes que haviam desbravado os mares da Terra Nova , toda aquela geografia de vento e sal ficaria para sempre gravada em sua alma, mas seria no Recife que ele escreveria o capítulo mais importante de sua vida.
O que José Joaquim não podia saber, ao desembarcar naquele ano de 1870, é que seu gesto — aparentemente individual, movido pela necessidade e pela esperança — daria início a uma cadeia de existências que se estenderia por mais de um século e meio. Dele viriam filhos, netos, bisnetos; um deles, Wilson Samarcos, nascido em 1914, tornar-se-ia sócio-fundador da Casa Holland, a maior loja de decoração e móveis do Recife, casar-se-ia com Helly Uchoa em 1945, teria seus dois filhos, moraria em casa própria na Várzea, teria uma granja e uma casa de praia em Piedade, construindo com trabalho e talento a prosperidade que o avô imigrante apenas podia sonhar nos primeiros e incertos anos em terras brasileiras.
A história da emigração portuguesa para o Brasil é feita de milhões de histórias como a de José Joaquim de São Marcos — homens e mulheres que atravessaram o oceano levando na bagagem pouco mais que a coragem e o ofício, e que com seu trabalho paciente ajudaram a construir o país que hoje somos. Mas cada uma dessas histórias é também única, irrepetível, tecida com fios particulares de memória, de afeto, de escolhas que parecem pequenas mas carregam o peso de destinos inteiros. A de José Joaquim, iniciada naquelas terras entre o Mondego e o Atlântico, floresceu nos trópicos, deu frutos, espalhou sementes. E chega até nós, seus descendentes, como um legado de coragem, de trabalho, de fé no futuro — o mesmo futuro que ele, de algum lugar do passado, nos confiou construir.
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