1820

 Nasce, no dia  Joaquim de São Marcos em Buarcos, Freguesia de Figueira da Foz, Distrito de Coimbra, Portugal. 

O Nascimento de Joaquim de São Marcos em Buarcos e a Revolução que Abalou Portugal

A Vila e o Mar

Há lugares onde a história parece pairar sobre as águas, esperando o momento de descer sobre os homens e arrastá-los em suas correntezas. Buarcos, naquele ano de 1820, era um desses lugares. Pequena freguesia do concelho da Figueira da Foz, aninhada na costa atlântica entre a foz do Mondego e o mar aberto, Buarcos vivia do sal e da pesca, do comércio que entrava e saía pelo seu porto e da contemplação desse oceano que era, ao mesmo tempo, sustento e mistério, caminho e ameaça.

Foi ali, muito provavelmente em algum dia dos primeiros meses daquele ano, que nasceu Joaquim de São Marcos — aquele que, décadas mais tarde, cruzaria o Atlântico para fincar raízes em terras pernambucanas e dar origem a uma linhagem que ainda hoje perdura. O dia exato perdeu-se na poeira dos arquivos, mas o contexto em que esse nascimento se deu é tão claro quanto as águas que banhavam sua terra natal.

O ano de 1820 encontrou Portugal em uma das encruzilhadas mais dramáticas de sua história milenar. Tudo o que fora sólido parecia desmanchar-se no ar, e os ventos que sopravam do Atlântico traziam não apenas o cheiro do sal, mas também o perfume inebriante e perigoso da liberdade.

Portugal Ocupado e a Corte no Rio

Para compreender o mundo em que Joaquim de São Marcos abriu os olhos pela primeira vez, é preciso recuar treze anos, a 1807, quando as tropas de Napoleão Bonaparte, comandadas pelo general Junot, atravessaram a fronteira e marcharam sobre Lisboa. O príncipe regente D. João, pressionado pelos ingleses e temendo o destino do rei da Espanha, que Napoleão mantinha prisioneiro, tomou a decisão mais drástica de sua vida: transferiu a corte e toda a máquina do Estado para o Brasil, embarcando em uma frota de mais de trinta navios, sob escolta britânica, rumo ao Rio de Janeiro.

Portugal ficou órfão de seu rei, de sua corte, de seu governo. O país que os franceses ocuparam era um corpo sem cabeça, entregue à administração de regências nomeadas às pressas e à proteção dos ingleses, que logo expulsaram os invasores mas permaneceram como tutores de fato. Quando a guerra terminou, em 1814, e Napoleão foi exilado em Elba, a situação portuguesa não se normalizou: D. João, agora rei desde a morte de sua mãe, D. Maria I, em 1816, permaneceu no Rio de Janeiro, elevando o Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves em 1815 e governando de lá um império que se estendia de Lisboa a Macau.

Para os portugueses da metrópole, a situação era insuportável. O país que um dia fora a cabeça de um vasto império reduzia-se a uma província administrada à distância, enquanto o Rio de Janeiro florescia com a corte, os novos tribunais, a imprensa, o Banco do Brasil. Os comerciantes do Porto e de Lisboa viam seus negócios definharem, sufocados pelos privilégios concedidos aos ingleses — a abertura dos portos brasileiros às nações amigas, em 1808, e os tratados de 1810 haviam na prática destruído o monopólio colonial que durante séculos alimentara o comércio português. Os produtos britânicos entravam no Brasil com tarifas preferenciais, enquanto os portugueses pagavam mais caro para comerciar com sua própria colônia. A humilhação econômica somava-se à humilhação política: o exército português era comandado por oficiais ingleses, como o marechal Beresford, e a nação via-se reduzida à condição de protetorado disfarçado.

O Fermento da Revolução

Esse caldo de descontentamento vinha fervendo há anos, mas foi em 1820 que atingiu o ponto de ebulição. A Espanha vizinha dera o exemplo: em janeiro daquele ano, o coronel Rafael del Riego liderara um levante que obrigara o rei Fernando VII a jurar a Constituição liberal de 1812. As notícias atravessaram a fronteira e incendiaram os espíritos portugueses.

No Porto, a maçonaria e as sociedades secretas trabalhavam nos bastidores, preparando o terreno. A cidade, berço da nacionalidade e tradicional centro comercial, era o foco natural do descontentamento. Seus burgueses, seus comerciantes, seus militares — todos sentiam na carne as consequências da ausência da corte e da dominação britânica.

Na madrugada de 24 de agosto de 1820, eclodiu a Revolução Liberal do Porto. Tropas rebeldes, comandadas por oficiais que aderiram ao movimento, tomaram a cidade e estabeleceram uma Junta Provisional do Governo Supremo do Reino. O grito era claro: exigia-se o retorno imediato do rei D. João VI, a convocação de Cortes Constituintes e a elaboração de uma Constituição que limitasse os poderes do monarca e restaurasse a soberania da nação.

O movimento espalhou-se como fogo em palha seca. Lisboa aderiu em setembro, e em outubro já se formara em ambas as cidades uma Junta Provisional preparatória das Cortes. O Brasil, que até então vivera seus dourados anos de sede do império, via com apreensão esses acontecimentos: as Cortes que se reuniriam em Lisboa certamente tentariam rebaixar o Reino Unido à condição de colônia novamente, e o príncipe herdeiro, D. Pedro, que ficara no Rio de Janeiro quando o pai finalmente retornou a Portugal em 1821, seria o protagonista do desfecho dessa história.

Buarcos em 1820

Enquanto esses grandes acontecimentos se desenrolavam no palco da história nacional, em Buarcos a vida seguia seu curso, mas não imune aos ventos que sopravam de Lisboa e do Porto. A Figueira da Foz, vila vizinha, era um porto importante, e suas gentes estavam acostumadas a receber notícias de toda parte, trazidas pelos navios que entravam e saíam.

Buarcos, especificamente, tinha tradição marítima antiga. Seu porto, embora secundário em relação ao da Figueira, movimentava pescado, sal e mercadorias diversas. Os homens da terra conheciam o mar como poucos: muitos eram pescadores que passavam meses em campanhas de pesca, outros eram marinheiros que navegavam nas rotas comerciais da costa portuguesa e, eventualmente, para além dela. O oceano, para eles, era ao mesmo tempo horizonte e destino.

Foi nesse ambiente de mar e sal, de trabalho duro e esperanças contidas, que Joaquim de São Marcos nasceu. Seu sobrenome — São Marcos — evocava o santo evangelista, protetor dos leões e dos escribas, mas também, quem sabe, alguma devoção familiar ou alguma circunstância particular de seu nascimento. Não sabemos quem eram seus pais, nem que ofício exerciam. Podiam ser pescadores, como tantos em Buarcos; podiam ser pequenos comerciantes ligados ao porto; podiam ser lavradores das terras em redor. O que sabemos é que, anos mais tarde, Joaquim emigraria para o Brasil e se estabeleceria no Recife como comerciante de chapéus — ofício que aprendera talvez em Portugal, talvez já na terra nova.

O Bebê e a Revolução

O menino que chorava em algum berço de Buarcos, naquele ano de 1820, não podia saber que os acontecimentos que agitavam o país moldariam também seu destino. Porque a Revolução Liberal do Porto, ao forçar o retorno de D. João VI a Portugal e ao desencadear o processo que levaria à independência do Brasil em 1822, criou as condições para que milhares de portugueses como ele — e como seu neto José Joaquim de São Marcos, que também emigraria décadas mais tarde — cruzassem o Atlântico em busca de vida nova.

A independência do Brasil, proclamada por D. Pedro em 7 de setembro de 1822, não rompeu os laços entre os dois países. Pelo contrário: a antiga colônia continuou a atrair portugueses durante todo o século XIX, em números que só fariam crescer. Homens como Joaquim de São Marcos — e mais tarde seu neto José Joaquim — seriam parte dessa corrente migratória que ajudou a construir o Brasil que hoje conhecemos.

Quando Joaquim nasceu, Portugal ainda era a cabeça de um império formalmente unido; quando ele tivesse dois anos, esse império já teria se partido em dois. Quando ele fosse um jovem adulto, na década de 1840, o Brasil estaria consolidado como nação independente, e o Recife, para onde emigraria, seria uma das mais importantes cidades do novo país, pulsando com o comércio do açúcar e do algodão, com seus sobrados, suas ruas movimentadas e sua intensa vida política e cultural.

O Legado

Joaquim de São Marcos não deixou na história os rastros dos grandes vultos. Seu nome não está nos livros, não nomeia ruas, não figura em estátuas. Mas sua vida — a vida de um homem comum que emigrou, trabalhou, constituiu família e transmitiu seu sangue e seu sobrenome a gerações futuras — é tão importante para a história da família Samarcos quanto a dos personagens ilustres que pontuam esta narrativa.

Porque são esses homens e mulheres anônimos, esses milhões que cruzaram oceanos em busca de um futuro melhor, que construíram as bases do mundo em que vivemos. O menino nascido em Buarcos em 1820, que talvez tenha ouvido em sua infância os ecos das guerras liberais e das disputas políticas que agitaram Portugal nas décadas seguintes, que talvez tenha crescido sonhando com terras distantes, que um dia embarcou em algum navio rumo ao Recife — esse menino é o elo que liga a velha Europa à nova América, o passado ao presente, a história à memória.

Hoje, quando seus descendentes percorrem os registros e tentam reconstituir a trama de sua própria origem, é em Joaquim de São Marcos que encontram um dos pontos de partida. Nascido sob o signo da Revolução Liberal, numa vila de pescadores da costa portuguesa, ele carregava consigo, sem o saber, o destino de tantos que viriam depois dele. E é por isso que, ao contar sua história, contamos também um pouco da história de Portugal, do Brasil, e desse longo e fascinante diálogo entre as duas margens do Atlântico que a língua, a memória e o sangue teimam em manter vivo.

Sessão das Cortes de Lisboa, no Palácio das Necessidades. Deputados reunidos em Assembleia, incluindo representantes das províncias brasileiras, como Antônio Carlos de Andrada (São Paulo), discursando em pé, trajando casaca castanha-tela do pintor brasileiro Óscar Pereira Silva.

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