1939

Há anos que guardam na alma o peso de uma era, e 1939 foi um desses anos. Enquanto na Europa as sombras se adensavam e o continente cambaleava em direção ao abismo da Segunda Guerra Mundial, numa cidade banhada pelo Capibaribe e pelo Atlântico, duas vidas jovens começavam a se entrelaçar para dar origem a uma história familiar que atravessaria gerações. No Recife de 1939, o século XX já se anunciava com ímpeto, mas sem nunca esquecer as tradições que faziam da capital pernambucana uma das cidades mais fascinantes do Brasil. Sob a administração do interventor Agamenon Magalhães, figura central do Estado Novo em Pernambuco, o Recife vivia um momento de profundas reformas urbanas que buscavam imprimir à cidade um semblante de modernidade. Pontes eram erguidas sobre os rios que cortavam a capital, avenidas eram alargadas para dar vazão a um número crescente de automóveis, e a iluminação pública se expandia para bairros antes mergulhados na penumbra. Os anúncios comerciais que preenchiam as páginas dos jornais locais, como o Diário de Pernambuco, traziam ecos de um mundo que se queria moderno: produtos industrializados, medicamentos milagrosos, eletrodomésticos que prometiam libertar as donas de casa de um trabalho sem fim. Mas o Recife era, acima de tudo, uma cidade de contrastes. Ao lado das vitrines elegantes da Rua Nova, estendiam-se os mangues e alagados onde a população mais pobre construía seus mocambos de taipa, palha e barro, habitações que naquele ano representavam mais de sessenta por cento das edificações da cidade. Foi nesse mesmo 1939 que a Liga Social Contra os Mocambos, sob a égide de Agamenon Magalhães, promoveu um polêmico concurso de mocambos, uma tentativa de diagnosticar e, ao mesmo tempo, espetacularizar a miséria que assolava grande parte da população recifense. A cidade respirava, portanto, entre a promessa do progresso e a dura realidade da exclusão.

Em meio a esse Recife efervescente e contraditório, viviam Helly Uchoa e Wilson Samarcos, duas almas jovens que, como tantas outras, construíam seu destino com o trabalho cotidiano e a simplicidade dos gestos. Wilson, nascido em 1915, era naquele ano um jovem de vinte e quatro anos no vigor da vida. Comerciante de profissão, inseria-se em uma das atividades mais características da economia recifense da época, um universo pulsante que ia das grandes casas importadoras da área central às modestas vendas de secos e molhados dos bairros populares. Ser comerciante significava fazer parte de uma classe média urbana em formação, homens que acordavam cedo para abrir suas portas, negociavam com fornecedores, concediam fiado a fregueses conhecidos e sonhavam com dias melhores para seus negócios e suas famílias. Helly, nascida por volta de 1922, tinha apenas dezessete anos quando o ano começou. Moça ainda, mas já mulher suficiente para assumir as responsabilidades da vida adulta, ela representava o papel central que as mulheres desempenhavam na estrutura familiar da época, guardiãs do lar, educadoras dos filhos, tecelãs silenciosas do afeto que mantinha a família unida. Naquele tempo, é possível imaginar Wilson saindo cedo de casa, talvez ainda com o orvalho da manhã cobrindo as ruas de paralelepípedos, rumo ao seu estabelecimento comercial, seu trabalho exigindo dedicação integral de segunda a sábado, e muitas vezes também aos domingos pela manhã, com o contato com os fregueses, a negociação com os fornecedores, o cuidadoso controle do caderno de fiado demandando atenção e perícia. Helly, por sua vez, dedicava-se às tarefas do lar, que naqueles tempos eram muito mais laboriosas do que hoje: cozinhar em fogões a lenha ou a querosene, lavar roupas no tanque, passar a ferro com equipamentos pesados que exigiam aquecimento no fogo, fazer compras na feira ou na venda do bairro, cada atividade consumindo horas preciosas do dia. Mas havia também os momentos de convívio, o café da tarde com vizinhas, as conversas à janela, as novenas na igreja do bairro. A casa onde moravam, já então própria e situada no bairro da Várzea, refletia o fruto de um trabalho perseverante: uma residência com quintal, varanda fresca, mobília simples mas cuidada, a mesa de jantar onde a família se reunia, a cômoda com as roupas bem dobradas, o rádio de válvulas que à noite trazia para dentro de casa as vozes do mundo e as músicas que embalavam os sonhos.

O ano de 1939 terminaria com o mundo em guerra, mas para eles, como para tantos brasileiros, a vida seguiu seu curso, o comércio continuou a abrir suas portas todos os dias, as panelas continuaram a ferver no fogo, e o que importa, ao olhar para trás, não é apenas reconstituir os fatos, mas perceber como na simplicidade daquele cotidiano eles estavam construindo algo maior do que talvez imaginassem, cada refeição partilhada, cada dificuldade enfrentada com dignidade, cada gesto de amor e cuidado tecendo a trama de uma história familiar que chegaria até nós. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário