1853

Há anos que guardam na alma o peso de uma era, e 1853 foi um desses anos — um tempo de transformações silenciosas na velha Europa, quando Portugal, ainda mergulhado nas contradições de um liberalismo tardio, via seus filhos partirem em busca de horizontes que a terra natal já não podia oferecer. Foi nesse ano, muito provavelmente na freguesia de Ílhavo ou nas vizinhas Lavos e Buarcos, que José Joaquim de São Marcos — ou Samarcos, como o tempo e o uso popular consagrariam o nome — abriu os olhos pela primeira vez, numa pequena comunidade de pescadores à beira do Atlântico português, sem saber que seu destino o levaria, décadas mais tarde, a cruzar o oceano e a fincar raízes em terras brasileiras.

Para compreender o mundo em que José Joaquim nasceu, é preciso mergulhar no Portugal de meados do século XIX, um país que emergia das guerras liberais com a monarquia constitucional finalmente consolidada, mas que carregava as marcas profundas de décadas de instabilidade. Sob o reinado de D. Maria II, que governaria até o fim daquele ano de 1853, Portugal experimentava os primeiros passos de um regime parlamentar ainda frágil, marcado pela constante disputa entre facções políticas — os cartistas, defensores da Carta Constitucional outorgada por D. Pedro, e os setembristas, que sonhavam com o retorno da Constituição mais democrática de 1822 . Essa instabilidade política, porém, era apenas a superfície de um mal mais profundo: a economia portuguesa estagnava, incapaz de acompanhar o ritmo de industrialização que transformava a Inglaterra, a França e a Alemanha. O país continuava a depender da agricultura e das rendas da terra, enquanto a ausência de um sistema financeiro moderno impedia que os empreendedores encontrassem o capital necessário para adquirir máquinas e sustentar indústrias nascentes . A tal ponto que, ainda nas décadas seguintes, os portugueses seriam, entre todos os europeus, os mais baixos em estatura — um indicador antropométrico que revelava, no corpo da população, as deficiências nutricionais e a falta de investimento em capital humano que marcavam o atraso do país .

No litoral centro, entre a foz do Mondego e a ria de Aveiro, as terras de Ílhavo, Lavos e Buarcos viviam uma realidade particular, moldada pela presença constante do mar. Ílhavo, desde tempos imemoriais, era terra de navegantes — homens que se lançavam à arriscada aventura da pesca do bacalhau nos mares gelados da Gronelândia e da Terra Nova, aproveitando a vocação marítima que a proximidade do oceano e a produção local de sal, essencial à conservação do peixe, haviam cultivado ao longo dos séculos . Essa tradição, que faria de Ílhavo um dos mais importantes centros da indústria bacalhoeira portuguesa, estava gravada na alma da região: os rapazes cresciam ouvindo histórias de viagens que duravam meses, de temporais implacáveis, de dóris lançados ao mar com um único homem a bordo, pescando com linhas de mão e centenas de anzóis, e do regresso ao navio-fábrica com os porões repletos de peixe que seria salgado e seco para alimentar o país .

Buarcos, freguesia vizinha integrada no concelho da Figueira da Foz, partilhava dessa mesma vocação marítima, mas com características próprias. Fora outrora um importante porto de mar, cuja relevância chegara a superar a da própria Figueira, e suas gentes — pescadores e homens do mar — conheciam as artes da navegação e os riscos do Atlântico como poucos. Lavos, por sua vez, completava essa paisagem de sal e vento, com suas terras entre o mar e os campos, onde a vida oscilava entre a faina piscatória e o cultivo de pequenas propriedades que mal davam para o sustento.

Nascido nesse ambiente, José Joaquim era filho de uma família de pescadores — provavelmente gente humilde, que conhecia de perto a dureza da vida no mar, as longas ausências de casa, o risco constante de não regressar. O pai, como tantos outros ilhavenses, deve ter feito as campanhas do bacalhau, passando meses a bordo de lugres que singravam o Atlântico Norte, enquanto a mãe ficava em terra, cuidando dos filhos e esperando, nas noites de tempestade, que o mar não levasse o sustento da família. O menino José Joaquim cresceu, assim, entre os cheiros da ria e do oceano, ouvindo desde cedo as histórias de viagens, de peixes enormes, de naufrágios e de regressos — um imaginário que, paradoxalmente, o afastaria do mar em vez de aproximá-lo.

Porque José Joaquim, ao contrário de seu pai e de seus antepassados, não seguiria a vida de pescador. Talvez tivesse visto de perto o sofrimento das longas ausências, o desgaste do corpo nas fainas pesadas, os poucos ganhos que a pesca proporcionava. Talvez a mãe, ao vê-lo crescer, sonhasse para ele um destino diferente — menos arriscado, menos incerto. O certo é que, quando chegou a hora de escolher um ofício, José Joaquim não se fez ao mar; aprendeu, em vez disso, o comércio de chapéus.

A escolha pode parecer estranha, mas inseria-se nas transformações que o próprio Portugal atravessava. Embora atrasado em relação à Europa industrializada, o país via crescer suas cidades e, com elas, o comércio urbano. O chapéu, no século XIX, não era mero acessório: era símbolo de distinção social, marcador de status, peça essencial no vestuário de qualquer homem ou mulher que aspirasse à respeitabilidade . Aprender o ofício de chapeleiro — ou de comerciante de chapéus — era, portanto, adquirir uma profissão com futuro, que permitiria ascender socialmente e escapar à pobreza que ameaçava tantas famílias de pescadores.

Não se sabe exatamente quando nem por que caminhos José Joaquim decidiu emigrar para o Brasil. Talvez houvesse parentes ou conhecidos já estabelecidos no Recife, que lhe escrevessem cartas contando das oportunidades na antiga colônia. Talvez fosse simplesmente a percepção de que, em Portugal, as perspectivas eram limitadas — a agricultura estagnada, a indústria incipiente, o comércio restrito — enquanto do outro lado do Atlântico um país imenso se abria para quem tivesse disposição para o trabalho. O Brasil, que se tornara independente há apenas meio século, continuava a atrair levas de imigrantes portugueses, formando uma comunidade que, no Recife, era particularmente ativa e organizada, com instituições como o Real Hospital Português e o Gabinete Português de Leitura que até hoje testemunham sua importância .

O que se sabe é que José Joaquim de São Marcos, o menino nascido em 1853 nas terras entre Ílhavo e Buarcos, filho de pescadores da costa portuguesa, tomou um dia o caminho do porto, embarcou num vapor que cruzava o Atlântico e desembarcou no Recife para se tornar comerciante de chapéus. O ofício aprendido na terra natal seria seu passaporte para uma vida nova, o instrumento com que construiria seu lugar na sociedade recifense e, sem o saber, daria início a uma linhagem que atravessaria gerações.

As terras que ele deixara para trás — os areais de Buarcos, as salinas de Ílhavo, os campos de Lavos — continuariam a existir em sua memória como paisagens da infância, mas seria no Recife que ele escreveria o capítulo mais importante de sua vida. Dele viriam filhos, netos, bisnetos; um deles, Wilson Samarcos, nascido em 1914, tornar-se-ia sócio-fundador da Casa Holland, a maior loja de decoração e móveis do Recife, casar-se-ia com Helly Uchoa em 1945, teria seus dois filhos, moraria em casa própria na Várzea, teria uma granja e uma casa de praia em Piedade, construindo com trabalho e talento a prosperidade que o avô imigrante apenas podia sonhar nos primeiros e incertos anos em terras brasileiras.

E tudo começou naquele 1853, num pequeno lugarejo da costa portuguesa, onde uma criança abriu os olhos para um mundo que, décadas mais tarde, ela mesma ajudaria a transformar.

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