O Guardião da Elegância: Ensaio sobre Wilson Samarcos, a Casa Hollanda e o Recife de 1976
Há mortes que são, também, o fechar de um ciclo de uma época. 1976 chegava ao Recife com a cidade já firmemente plantada na modernidade dos arranha-céus, mas ainda guardando, em seus interiores, um último suspiro de uma elegância que fora forjada nos sobrados e nos palacetes das primeiras décadas do século. Foi nesse ano que partiu Wilson Samarcos, e com ele, silenciosamente, uma certa arte de viver pernambucana perdia um de seus mais distintos artífices.
Wilson Samarcos não construía pontes nem arranha-céus. Sua arquitetura era outra, mais íntima e talvez mais reveladora da alma de uma sociedade: a arquitetura dos interiores. Numa época em que a sala de visitas ainda era o cartão de visitas de uma família, em que o mobiliário contava a história de um clã e a disposição dos objetos revelava o grau de cultura e sensibilidade dos moradores, Wilson era o maestro dessa sinfonia doméstica. Seu ofício era o de criar ambientes que fossem, ao mesmo tempo, confortáveis e imponentes, acolhedores e cheios de personalidade.
O instrumento através do qual Wilson Samarcos exercia essa arte era a Casa Hollanda. Mais do que uma simples loja, a Casa Hollanda foi, nas décadas de 60 e 70, uma instituição recifense. Era o endereço obrigatório para quem buscava não apenas móveis, mas distinção. Num Recife que se modernizava aceleradamente, mas que ainda cultivava o gosto refinado das elites tradicionais, a Casa Hollanda era o ponto de encontro entre o desejo de sofisticação e a concretude dos objetos bem-feitos.
Como sócio-gerente da Casa Hollanda, Wilson não era um mero comerciante. Era um curador, um editor de gostos. Sua sensibilidade para linhas, texturas e proporções transformava a loja numa galeria onde cada peça contava uma história. Os lustres importados, as tapeçarias, os móveis de jacarandá, as louças finas que chegavam da Europa — tudo passava pelo crise de seus olhos treinados. Quem atravessava as portas da Casa Hollanda não estava apenas comprando um móvel; estava sendo iniciado num código de elegância, tendo acesso a um repertório de formas e estilos que definiam o que significava, naquele Recife, "ter bom gosto".
A década de 1970 foi um período de contrastes para o Brasil e para Pernambuco. Era o auge do "milagre econômico" já em seus estertores, o endurecimento da ditadura militar, mas também a explosão de uma cultura urbana que se expressava no cinema, na música e nas artes. No Recife, enquanto o movimento armorial de Ariano Suassuna buscava as raízes populares da cultura brasileira, e enquanto o cinema de Guerra Peixe e a poesia de João Cabral de Melo Neto ganhavam o mundo, havia um outro estrato da sociedade que cultivava uma elegância mais silenciosa, mais voltada para o interior dos lares.
Era nesse estrato que Wilson Samarcos reinava absoluto. Sua clientela era a nata da sociedade pernambucana: os herdeiros dos engenhos, os industriais emergentes, os profissionais liberais de sucesso, os políticos que faziam a história nos palanques e nos gabinetes. Para todos eles, Wilson era mais que um fornecedor — era um conselheiro, um confidente estético, alguém que entendia que a disposição de uma poltrona ou a escolha de um papel de parede podiam dizer mais sobre uma família do que qualquer discurso.
O ofício de decorador, naqueles anos, não tinha ainda o glamour e a exposição midiática que viria a ter décadas depois. Era um trabalho discreto, quase anônimo, realizado nos bastidores dos lares, longe dos holofotes. Wilson Samarcos pertencia a essa linhagem de profissionais que entendiam a elegância como discrição, que sabiam que o verdadeiro luxo não é a ostentação, mas a harmonia. Seu legado não está em obras assinadas ou em edifícios tombados, mas na memória afetiva de gerações de recifenses que cresceram em ambientes por ele concebidos, em salas onde cada objeto estava no lugar exato, em lares onde a beleza era uma presença cotidiana e silenciosa.
Sua morte, em 1976, deixou uma lacuna não apenas na direção da Casa Hollanda, mas no próprio ecossistema cultural do Recife. A cidade perdia um de seus últimos representantes de uma geração para quem o comércio podia ser, também, uma forma de arte, e para quem a decoração de interiores não era frivolidade, mas uma dimensão essencial da vida civilizada.
Ao lembrarmos de Wilson Samarcos, lembramos de um Recife que já não existe — a cidade dos palacetes da Jaqueira, dos apartamentos suntuosos da Avenida Boa Viagem, das salas de jantar onde se reunia a intelligentsia e a elite para longas conversas regadas a licor e política. Mas lembramos também de algo que não deveria desaparecer: a compreensão de que os espaços que habitamos moldam quem somos, e que a beleza, longe de ser supérflua, é uma necessidade profunda da alma humana.
Que sua memória permaneça viva nas paredes dos lares que ajudou a embelezar, na saudade dos que tiveram o privilégio de conhecer seu olhar, e na certeza de que, enquanto houver quem se importe com a harmonia de um ambiente, haverá um pouco de Wilson Samarcos entre nós.
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