1922

A Herdeira de Branca Dias: Um Ensaio sobre Dona Helly Rocha Uchoa e o Recife de Seu Tempo

Há, por vezes, uma poesia silenciosa nas datas. O ano de 1922, tão simbólico para o Brasil com a Semana de Arte Moderna que sacudiu o eixo cultural do país, trazia em seu bojo, nas sinuosas ruas do Recife, um outro tipo de movimento, mais íntimo e talvez mais profundo: o ciclo da vida e da morte a se entrelaçar. Foi o ano em que Dona Adelaide, matriarca de uma tradição, fechava os olhos para o tempo, e, como se para que a chama não se apagasse, nascia Dona Helly Rocha Uchoa.

Helly veio ao mundo carregando, sem o saber, o peso e a leveza de uma herança que transcendia o sangue: a herança de Branca Dias. Figura quase mítica da história pernambucana, Branca Dias foi uma cristã-nova do século XVI, perseguida pela Inquisição e hoje envolta em lendas que a situam como fundadora de uma casa em Olinda e dona de poderes misteriosos. Mais do que um fato genealógico, ser da "linha de Branca Dias" significa pertencer a uma linhagem de resistência silenciosa, de mulheres fortes que, entre o açúcar e o sobrado, entre a fé e o medo, teceram a alma pernambucana. É carregar no DNA a memória da diáspora, do segredo, da adaptação e da manutenção da cultura em tempos de brasas e sombras.

Crescer no Recife das primeiras décadas do século XX era viver numa cidade que era, ela própria, um palimpsesto. As antigas memórias coloniais ainda ecoavam nas ladeiras de Olinda e nos casarões do bairro do Recife, com suas pontes que ligavam não só massas de terra, mas tempos históricos. Era um Recife que respirava transformação, entre o fim da Belle Époque e os ventos do modernismo, mas que ainda guardava códigos sociais rígidos, especialmente para as mulheres.

Dona Helly pertenceu a esse Recife. Sua existência se desenrolou num período de profundas mudanças: viveu o final da República Velha, a efervescência da Revolução de 30, o Estado Novo, os anos dourados do pós-guerra e o duro ciclo da ditadura militar, até a redemocratização. E em cada uma dessas fases, a cidade também se modificava. Os antigos sobrados foram dando lugar a edifícios modernos, os bondes foram substituídos por automóveis, e o Capibaribe, que antes era a principal via de comunicação, passou a ser um cenário observado das pontes cada vez mais movimentadas.

Mas em meio a esse turbilhão, o que significa ser uma herdeira de Branca Dias? Significa ser guardiã. Guardiã de uma memória que não está nos livros oficiais, mas nas receitas passadas de mãe para filha, na forma de organizar a mesa, nos bordados que enfeitam os lençóis de linho, na maneira de receber as visitas nos frescos das salas de azulejos portugueses. A herança de Branca Dias, para mulheres como Helly, manifestava-se não em rituais secretos, mas na força cotidiana de manter a família unida, de preservar a história através dos objetos e das narrativas orais, de ser o esteio moral e afetivo de um clã.

Enquanto o Recife fervia com o manguebeat de Chico Science e a poesia de João Cabral, nos lares mais tradicionais ainda se cultivava a aura da "boa sociedade". Dona Helly navegou por essas águas, testemunhando o fim de um mundo e o nascimento de outro. Ela viu o patriarcalismo dos engenhos de açúcar se desfazer na poeira dos canaviais e assistiu à ascensão de uma nova classe média urbana. Sua vida, portanto, é um fio condutor entre o Recife que foi e o Recife que é.

Nascida no mesmo ano em que Dona Adelaide partia, Helly Rocha Uchoa cumpriu, talvez sem alarde, a missão de sua linhagem. Foi uma ponte viva entre o passado de Branca Dias e o futuro que se anunciava. Ao lembrarmos de seu nascimento, não celebramos apenas um indivíduo, mas todo um modo de ser pernambucano: a força discreta, a elegância natural e a capacidade de resistir e florescer, como uma branca dia, nas frestas do tempo. Que sua memória, como a de suas antepassadas, permaneça acesa nas narrativas de quem teve o privilégio de conhecer sua história.

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